
Donald Trump e Andrzej Duda em Varsóvia, no contexto da aproximação dos Estados Unidos com a Iniciativa dos Três Mares em 2017. Imagem em domínio público, The White House/Shealah Craighead.
A Iniciativa dos Três Mares é um fórum de cooperação entre países europeus situados entre o mar Báltico, o mar Adriático e o mar Negro. Ela reúne 13 Estados-membros da União Europeia para ampliar conexões de transporte, energia e infraestrutura digital no eixo norte-sul do continente. O formato não funciona como uma organização internacional clássica, pois não possui tratado constitutivo, secretaria forte nem orçamento comparável ao da UE. Seu peso vem de um mecanismo de coordenação política que transforma gargalos nacionais em agenda regional. Primeiro, as cúpulas presidenciais definem prioridades comuns. Em seguida, os fóruns empresariais levam essas prioridades a bancos, empresas e investidores. Só então as listas de projetos dão visibilidade política a obras que, isoladamente, pareceriam apenas nacionais.
A lacuna que organiza a iniciativa é simples de entender, mas politicamente profunda. Depois da Guerra Fria, muitos desses países passaram a se conectar melhor à Alemanha, à Áustria e a outras economias ocidentais. As ligações entre o norte e o sul da própria região, porém, continuaram mais frágeis. Por isso, uma obra de transporte ou energia deixa de ser apenas infraestrutura pública quando muda as rotas disponíveis a vários países. Cada conexão nova amplia as opções de um governo em crises ao reduzir a dependência de um caminho único ou de um fornecedor dominante.
Resumo
- A Iniciativa dos Três Mares tenta reduzir gargalos de transporte, energia e infraestrutura digital que tornam o eixo norte-sul europeu menos integrado que as rotas voltadas ao oeste.
- O núcleo participante é formado por 13 Estados-membros da UE, o que mantém o fórum dentro do mercado único e o obriga a dialogar com regras, fundos e prioridades europeias.
- Os quatro associados, Ucrânia, Moldávia, Albânia e Montenegro, participam do fórum em razão da ligação entre reconstrução, alargamento europeu, segurança de rotas e infraestrutura compartilhada.
- A iniciativa se apresenta como complementar à UE, mas também dá aos países do centro-leste europeu uma plataforma própria para defender conectividade, segurança energética e mobilidade militar.
- Os projetos prioritários ilustram funções distintas da infraestrutura. Via Carpatia, Rail Baltica e Rail2Sea reorganizam corredores de transporte. BRUA, o terminal de GNL de Krk e a sincronização elétrica báltica ampliam opções energéticas e estratégicas.
Origem e sentido do nome
O nome “Três Mares” se refere ao espaço europeu compreendido entre o Báltico, o Adriático e o Negro. A expressão designa um conjunto de Estados que ocupam a faixa central e oriental da União Europeia, do norte báltico ao sudeste europeu. A iniciativa foi lançada politicamente por lideranças da Polônia e da Croácia em meados da década de 2010, e sua primeira cúpula presidencial ocorreu em Dubrovnik, em 2016.
O ponto de partida era econômico, embora a economia nunca tenha ficado separada da geopolítica. Após a Guerra Fria e a ampliação da UE para o leste, muitos países da região passaram a integrar o mercado único. Eles receberam fundos europeus e se conectaram melhor à Alemanha, à Áustria e a outras economias ocidentais. Entretanto, a ligação entre o Báltico, o Adriático e o Negro continuou desigual. Na prática, circular entre o norte e o sul da região ainda podia ser mais difícil do que seguir para o oeste.
Esse desenho tinha raízes históricas. Durante o período soviético e socialista, parte da infraestrutura da Europa Central e Oriental serviu cadeias produtivas, rotas militares e dependências energéticas voltadas para o leste. A integração com a UE, a partir de 1989, corrigiu parte desse legado. Ainda assim, as assimetrias persistiram. A Iniciativa dos Três Mares surgiu para transformar essa percepção regional em programa político. Sem ligações norte-sul mais densas, os países entre os três mares ficariam mais dependentes de terceiros para energia, investimento, acesso portuário e resposta conjunta a crises.
Membros, associados e parceiros estratégicos
O núcleo da iniciativa é composto por 13 Estados-membros da União Europeia, o que situa o fórum dentro do mercado único europeu. Essa base institucional o diferencia de uma aliança externa à UE:
- Áustria;
- Bulgária;
- Croácia;
- Tchéquia;
- Estônia;
- Grécia;
- Hungria;
- Letônia;
- Lituânia;
- Polônia;
- Romênia;
- Eslováquia;
- Eslovênia.
Os 12 participantes originais eram países da Europa Central, Báltica e Sudeste Europeu já integrados à UE. A entrada da Grécia ampliou o alcance meridional do fórum e aproximou a agenda dos Três Mares do Egeu e do Mediterrâneo oriental. Com isso, portos gregos, ferrovias balcânicas e rotas energéticas do sudeste europeu passaram a pesar mais na discussão sobre corredores entre o norte e o sul do continente.
A iniciativa também criou uma categoria para países que não pertencem ao núcleo de membros da UE. A Ucrânia e a Moldávia ganharam o status de Estados associados participantes após a invasão russa da Ucrânia e o avanço de seus processos de aproximação com a União Europeia. Em 2025, a Albânia e Montenegro foram acolhidos na mesma categoria. Essa ampliação não substitui as negociações formais de adesão à UE. Sua função é abrir uma mesa política em que infraestrutura, reconstrução, segurança de rotas e integração econômica possam ser discutidas antes ou em paralelo ao processo de alargamento europeu.
Os parceiros estratégicos entram nesse arranjo pela dependência regional de regras, capital e tecnologia que os membros não controlam sozinhos. A Comissão Europeia mantém a iniciativa ligada aos instrumentos financeiros e jurídicos da UE. A Alemanha acompanha o fórum porque a conectividade centro-oriental afeta cadeias produtivas, energia e circulação comercial ligadas à maior economia do bloco. Os Estados Unidos apoiam o formato desde cedo por razões energéticas e estratégicas, sobretudo para reduzir a dependência regional de gás russo e ampliar sua presença econômica. Japão, Espanha e Turquia ampliam esse círculo ao oferecer canais externos de investimento, tecnologia e diplomacia econômica, ainda que seus papéis variem conforme a cúpula e o projeto.
Estrutura institucional
A Iniciativa dos Três Mares opera mais como plataforma política do que como organização burocrática. Suas cúpulas reúnem presidentes, chefes de governo ou representantes de alto nível. Ao lado delas, o Fórum Empresarial dos Três Mares aproxima governos de bancos de desenvolvimento e de investidores em infraestrutura. Esse arranjo ajuda a transformar prioridades políticas em projetos financiáveis, embora não garanta, por si só, que as obras sejam construídas.
O grupo trabalha com projetos prioritários, relatórios de progresso e instrumentos financeiros. A lista inicial de interconexões foi apresentada na cúpula de Bucareste de 2018, com 48 iniciativas. Em meados da década de 2020, os relatórios oficiais já registravam mais de uma centena de projetos, com valor estimado superior a 100 bilhões de euros. Esse crescimento mostra que o fórum ganhou alcance. Ao mesmo tempo, revela a diferença entre prioridade política e execução material. A mesma lista pode incluir uma obra já pronta, um corredor em construção e um projeto que ainda depende de estudos, licenças e investidores.
O Fundo de Investimento da Iniciativa dos Três Mares foi criado para aproximar capital privado e bancos públicos de desenvolvimento. Seu desenho comercial o distingue de um fundo europeu de coesão. Em vez de distribuir verbas orçamentárias, ele busca investir em ativos que possam gerar retorno e ampliar a conectividade regional. Essa lógica inclui energia, transporte e infraestrutura digital. Em 2025, a declaração de Varsóvia registrou a preparação de instrumentos posteriores, inclusive um fundo de inovação com participação inicial de Polônia, Tchéquia, Hungria e Croácia. Esses mecanismos ainda dependem de recursos da UE, de orçamentos nacionais e de financiamento privado. Sua função é dar à iniciativa uma dimensão mais operacional do que a de uma conferência diplomática comum.
A lacuna norte-sul
O problema que organiza a iniciativa é a diferença entre conexões leste-oeste e norte-sul. Durante décadas, boa parte das rotas comerciais e energéticas da região foi orientada para centros de poder externos à própria faixa dos três mares. A entrada desses países na UE deu prioridade política e econômica às ligações com a Europa Ocidental. Em contrapartida, as conexões entre os próprios países do centro-leste europeu permaneceram fragmentadas, criando gargalos justamente onde a integração regional dependia de continuidade física entre fronteiras.
Essa fragmentação produz custos práticos. Uma carga que sai de um porto báltico rumo aos Bálcãs, por exemplo, pode enfrentar trechos ferroviários incompatíveis. A falta de terminais intermodais ou de corredores rodoviários completos aumenta o tempo de viagem e reduz a previsibilidade comercial. Para um país sem litoral, o acesso a portos depende de acordos estáveis com vizinhos e de serviços alfandegários que funcionem sem bloqueios políticos. No setor energético, a mesma lógica vale para redes elétricas e gás: um terminal de GNL só ganha valor regional quando existem gasodutos capazes de levar o combustível a outros países.
Desse modo, a infraestrutura deixa de ser apenas um conjunto de obras nacionais. Ela se torna uma condição para que Estados pequenos e médios negociem com mais opções. Quando um Estado da região investe em portos ou redes de energia, o ganho pode alcançar vizinhos que dependem dessas conexões. A iniciativa tenta dar forma regional a esse efeito, coordenando projetos que, isoladamente, seriam tratados como obras domésticas.
Transporte: rotas, portos e mobilidade militar
Os projetos de transporte são o componente mais visível da Iniciativa dos Três Mares. A Via Carpatia é uma rota rodoviária planejada para ligar o Báltico ao sudeste europeu. Seu traçado aproxima a Lituânia da Grécia por meio de uma sequência de países que atravessa o centro-leste do continente. A função da rota vai além de encurtar trajetos. Ao criar uma artéria norte-sul, ela pode conectar regiões periféricas, aproximar portos e reduzir a dependência de rotas concentradas no eixo oeste.
A Rail Baltica cumpre papel semelhante no norte. O projeto busca integrar Estônia, Letônia e Lituânia a uma rede ferroviária compatível com padrões europeus mais amplos, facilitando a ligação dos Estados bálticos à Polônia e ao restante da UE. Para os países bálticos, essa ferrovia tem valor comercial e reduz uma vulnerabilidade estratégica: a dependência de infraestruturas herdadas de uma lógica pós-soviética e menos conectadas ao espaço ferroviário europeu.
Outro exemplo é o Rail2Sea, pensado para ligar o porto polonês de Gdańsk, no Báltico, ao porto romeno de Constanța, no mar Negro. Uma rota desse tipo conecta comércio, logística militar e acesso marítimo. Em tempos normais, ela pode facilitar o escoamento de mercadorias. Em uma crise de segurança, pode ajudar a mover equipamentos, mantimentos e forças entre o norte e o sudeste do flanco oriental da OTAN.
Por isso, a declaração de Varsóvia de 2025 deu destaque à mobilidade militar. A expressão designa a capacidade de transportar tropas e equipamentos pesados sem atrasos incompatíveis com uma crise. As estradas, as pontes e as ferrovias precisam suportar esse uso sem paralisar a circulação civil. A guerra contra a Ucrânia tornou essa questão menos abstrata. As infraestruturas civis capazes de servir ao comércio podem sustentar defesa territorial, evacuação e abastecimento de aliados.
Energia: diversificação e interdependência
A agenda energética da iniciativa nasceu de uma vulnerabilidade antiga: a dependência de parte da Europa Central e Oriental em relação a recursos ou redes influenciados pela Rússia. Essa dependência variava de país para país, mas produzia um efeito político comum. Quando um fornecedor domina rotas, preços e contratos, ele ganha margem para pressionar governos em momentos de disputa.
Os terminais de GNL mudam parte dessa equação ao permitir a importação de gás por navio. O terminal polonês de Świnoujście, no Báltico, e o terminal croata da ilha de Krk, no Adriático, ampliam as opções regionais quando estão conectados por gasodutos e interconectores. O valor do GNL não está apenas no combustível recebido no porto, mas na possibilidade de redistribuir energia por uma rede mais flexível, reduzindo a capacidade de um único fornecedor de condicionar a política externa de países vizinhos.
O corredor BRUA, associado à Bulgária, Romênia, Hungria e Áustria, ilustra a mesma lógica. Um gasoduto regional ou uma interconexão só altera a geopolítica quando permite fluxo reverso, acesso a fontes diferentes e negociação entre vários mercados. Caso contrário, a obra apenas desloca a dependência de uma rota para outra. A Iniciativa dos Três Mares tenta evitar esse resultado ao tratar energia como sistema regional, não como contrato bilateral isolado.
A eletricidade báltica mostra outro mecanismo. Durante anos, Estônia, Letônia e Lituânia mantiveram vínculos técnicos com redes herdadas do espaço pós-soviético. A sincronização com as redes continentais europeias reduziu essa exposição e aproximou os três países do mercado elétrico da UE. Nesse caso, a infraestrutura define o sistema técnico que regula frequência, estabilidade e resposta a falhas.
Infraestrutura digital e “conectividade inteligente”
A dimensão digital da iniciativa amplia a agenda para além de estradas, trilhos e gasodutos. Redes de fibra óptica e centros de dados podem aumentar a eficiência das infraestruturas físicas. O mesmo vale para 5G, computação de alto desempenho e segurança cibernética. Uma ferrovia com controle digital, um porto com documentação integrada e uma rede elétrica capaz de lidar com geração renovável distribuída produzem ganhos diferentes de uma obra construída apenas em concreto e aço.
A noção de “conectividade inteligente” surgiu para nomear essa integração entre infraestrutura física e serviços digitais. Ela parte da ideia de que a energia, o transporte e os dados passaram a operar juntos. Uma rota de carga depende de sistemas alfandegários, rastreamento, interoperabilidade documental e plataformas de logística. Uma rede elétrica com energia renovável exige medição, armazenamento, previsão de demanda e troca rápida de informação entre operadores. Um mercado regional só funciona bem quando os países conseguem compartilhar padrões técnicos e dados confiáveis.
Essa agenda possui uma dimensão geopolítica: as infraestruturas digitais dependem de fornecedores, padrões de segurança e regras de proteção de dados. Ao trazer o tema para a Iniciativa dos Três Mares, os países do grupo tentam evitar que a conectividade regional seja construída apenas por decisões comerciais dispersas. A preocupação é que as redes críticas, se mal reguladas ou excessivamente dependentes de fornecedores externos, criem novas vulnerabilidades no lugar de reduzir as antigas.
Relação com a União Europeia
A Iniciativa dos Três Mares se apresenta como complementar à União Europeia. Essa formulação responde a uma tensão real. Para seus defensores, o fórum ajuda países do centro-leste europeu a identificar gargalos que os mecanismos gerais da UE tratam lentamente ou de forma dispersa. Para seus críticos, a iniciativa poderia reforçar uma divisão entre “velha” e “nova” Europa, sobretudo se fosse usada como bloco político contra Bruxelas, Berlim ou Paris.
Na prática, a iniciativa depende da UE em vários níveis. Muitos projetos precisam respeitar regras europeias de concorrência, contratação e meio ambiente. O financiamento se cruza com fundos de coesão e políticas de redes transeuropeias. Sem esse encaixe institucional, a iniciativa teria dificuldade para transformar declarações políticas em obras aceitas pelo mercado único.
Ao mesmo tempo, a plataforma dá voz regional a países que nem sempre conseguem impor prioridades no debate amplo da UE. Essa função aparece em projetos de natureza diferente. Uma estrada na fronteira entre a Polônia e a Eslováquia reforça continuidade rodoviária regional. A modernização de uma ferrovia báltica reduz isolamento logístico. A expansão de um terminal croata amplia alternativas energéticas. No quadro dos Três Mares, essas obras aparecem como partes de uma rede que fortalece coesão, segurança energética e mobilidade no flanco oriental do bloco.
Estados Unidos, Alemanha e a dimensão transatlântica
O apoio dos Estados Unidos à Iniciativa dos Três Mares decorre do modo como o fórum aproxima infraestrutura, energia e estratégia. A presença dos EUA na cúpula de Varsóvia de 2017 deu visibilidade internacional ao fórum e aproximou a agenda de segurança energética da política transatlântica. Para Washington, terminais de GNL, interconectores e rotas norte-sul reduzem a capacidade russa de usar energia como instrumento de pressão. Essas obras também abrem espaço para empresas, tecnologia e financiamento dos EUA.
Mesmo com essa convergência, a iniciativa continua ancorada em interesses regionais próprios. Alguns membros equilibram sua relação com os Estados Unidos, a Alemanha, a Comissão Europeia e vizinhos com posições políticas diferentes. A Hungria, por exemplo, manteve ao longo dos anos uma postura mais ambígua em relação à Rússia do que a Polônia ou os Estados bálticos. Essas diferenças limitam a capacidade do fórum de agir como bloco geopolítico uniforme.
A Alemanha ocupa uma posição sensível. Como maior economia da UE, Berlim influencia infraestrutura, energia e orçamento europeu. Sem algum tipo de envolvimento alemão, a iniciativa ficaria desconectada de uma parte central do mercado europeu. Ao mesmo tempo, parte dos países dos Três Mares via com desconfiança projetos como o Nord Stream, que levava gás russo diretamente à Alemanha pelo mar Báltico e contornava países de trânsito no centro-leste europeu. A participação alemã como parceira estratégica ajuda a reduzir a leitura de que a iniciativa é um agrupamento anti-Berlim. As disputas sobre prioridades energéticas e industriais, porém, continuam presentes.
Ucrânia, Moldávia e alargamento europeu
A invasão russa da Ucrânia mudou a função política da Iniciativa dos Três Mares. Antes de 2022, o fórum já tratava de segurança energética e conectividade regional. Com a guerra, essas áreas passaram a se ligar diretamente à sobrevivência econômica da Ucrânia. A circulação de exportações, o deslocamento de refugiados e a reconstrução futura entraram na mesma agenda da aproximação de Kiev e Chisinau com a União Europeia.
A Ucrânia precisa de rotas que a conectem ao mercado europeu mesmo quando o mar Negro está vulnerável a bloqueios, ataques ou insegurança marítima. Ferrovias, estradas, portos secos, redes de energia e conexões digitais podem cumprir essa função. A Moldávia, por sua vez, enfrenta restrições de escala, dependência energética e pressão geopolítica ligada à presença russa na Transnístria. Ao aproximar esses países da agenda dos Três Mares, o fórum cria um espaço em que reconstrução, integração europeia e segurança regional são discutidas em conjunto.
Essa aproximação tem limites. O status de associado participante não confere as garantias da OTAN, não equivale à entrada na UE e não resolve disputas territoriais. Ainda assim, ele ajuda a encaixar Ucrânia e Moldávia em projetos de conectividade que podem preparar uma integração econômica mais profunda. No caso dos Bálcãs Ocidentais, a associação da Albânia e de Montenegro segue lógica parecida: a infraestrutura pode antecipar parte da integração prática antes que o processo político de adesão à UE seja concluído.
Críticas e limites
A principal limitação da Iniciativa dos Três Mares é a distância entre ambição e execução. Uma lista com muitos projetos não significa que todos tenham financiamento, licenciamento, apoio local, maturidade técnica ou viabilidade econômica. Alguns projetos avançam quando já se encaixam em prioridades nacionais ou europeias. Outros permanecem como sinalização política, aguardando estudos, investidores ou consenso entre governos.
Outro limite é a heterogeneidade política dos membros. A Polônia e os Estados bálticos tendem a interpretar a iniciativa pelo prisma da segurança diante da Rússia. A Áustria tem interesses diferentes, pois é um país sem litoral e economicamente conectado à Europa Central. A Grécia traz o Mediterrâneo oriental e os Bálcãs para a equação. A Hungria frequentemente adota posições próprias em energia, Rússia e política europeia. Essas diferenças mantêm a cooperação concentrada em infraestrutura e reduzem a chance de o fórum agir como estratégia comum em temas mais sensíveis.
Há também a crítica de duplicação institucional. Como a UE já possui políticas de coesão, redes transeuropeias, programas energéticos e instrumentos de financiamento, alguns observadores perguntam se a iniciativa cria valor próprio ou apenas reembala projetos existentes. A resposta depende do caso. Quando o fórum dá visibilidade política, aproxima investidores e coordena trechos transfronteiriços, ele pode acelerar prioridades que ficariam dispersas. Quando apenas incorpora obras já planejadas por outros canais, seu papel se aproxima mais de uma vitrine diplomática.
O que a iniciativa altera na política europeia
A Iniciativa dos Três Mares transforma infraestrutura em linguagem diplomática comum para países com histórias e posições estratégicas diferentes. Um porto no Adriático ou uma ferrovia báltica não resolvem sozinhos as divisões europeias. O mesmo vale para um gasoduto romeno, um centro de dados húngaro ou uma estrada nos Cárpatos. Contudo, quando esses projetos reduzem gargalos entre fronteiras, eles ampliam opções de comércio, energia, defesa e integração.
O fórum reflete uma mudança na política europeia após 2022. Segurança não se limita a tanques, tropas e tratados militares: ela passa por capacidade industrial, portos, pontes, redes elétricas, semicondutores, inteligência artificial e interoperabilidade administrativa. A guerra na Ucrânia tornou visível que a infraestrutura civil pode sustentar resistência, abastecimento e reconstrução, enquanto sua ausência pode transformar fronteiras em pontos de estrangulamento.
O alcance da iniciativa, portanto, deve ser medido menos por sua capacidade de agir como bloco político e mais por sua habilidade de conectar projetos que mudam as escolhas disponíveis aos Estados da região. Se conseguir financiar e concluir corredores norte-sul, interconectores energéticos e redes digitais seguras, a Iniciativa dos Três Mares reduzirá vulnerabilidades que a geografia e a história deixaram no centro-leste europeu. Se permanecer concentrada em declarações e listas extensas sem execução, continuará funcionando como fórum útil de sinalização e terá efeito limitado sobre a distribuição real de poder e infraestrutura na Europa.