
O porta-aviões USS George Washington navega pelo Oceano Pacífico durante uma patrulha de rotina. Imagem de domínio público por Mass Communication Specialist Seaman Ricardo R. Guzman/U.S. Navy.
Hard power, também chamado em português de “poder duro”, é a influência exercida por meio de coerção ou pagamento. Em Relações Internacionais, o termo descreve o uso de capacidade militar ou de poder de barganha econômico para fazer outro ator mudar seu comportamento. Essas ferramentas são importantes nas barganhas de política externa, porque alteram as escolhas concretas disponíveis ao ator sob pressão.
Como o hard power funciona
A distinção de Joseph Nye entre hard power e soft power se baseia no mecanismo de influência. Nesse enquadramento, o hard power funciona por meio de coerção ou pagamento. Em contrapartida, o soft power funciona por meio de atração e persuasão.
O hard power muda comportamentos ao alterar o custo esperado de uma decisão política. Uma ameaça só funciona se o ator visado acreditar que recusá-la trará uma penalidade real. Por sua vez, uma recompensa só funciona se esse mesmo ator acreditar que aceitar a demanda trará um benefício real. Por isso, o hard power tem menos a ver com possuir recursos em abstrato do que com a capacidade de mudar as escolhas disponíveis ao ator cujo comportamento está em jogo.
Os Estados são os atores usuais de hard power porque suas instituições podem ligar uma ameaça a uma consequência executável. Por exemplo, as forças armadas permitem que um governo ameace usar ou use a força militar contra um adversário, enquanto os orçamentos públicos permitem recompensar ou apoiar um parceiro. Da mesma forma, sanções se tornam mais críveis quando o direito interno pode transformar uma decisão diplomática em restrições vinculantes ao acesso do alvo a opções de política externa.
Ainda assim, o hard power é relacional. A título de exemplo, um governo com muitos recursos pode não conseguir mudar o comportamento de outro ator se esse ator conseguir absorver a punição, substituir o benefício perdido ou encontrar outra fonte de apoio. Nessa situação, embora o Estado detentor de hard power tenha capacidade material, nem a pressão coercitiva nem a oferta de incentivos por ele produzem influência efetiva sobre o outro ator.
Hard power militar
O hard power militar é o uso, ou a ameaça de uso, de capacidade armada para influenciar outro ator. Ele pode aparecer na forma do uso direto da força. Com mais frequência, porém, opera por meio de sinais que remodelam a barganha antes do início de uma guerra.
Essa diferença cronológica ajuda a explicar tanto a dissuasão quanto a pressão para forçar concessões. O hard power militar, muitas vezes, tem efeito maior antes que a força seja usada. A dissuasão tenta impedir que um adversário tome uma ação indesejada ao elevar o custo esperado dessa ação. Em contrapartida, a pressão para forçar uma concessão tenta fazer um adversário aceitar uma demanda ao ameaçar uma punição caso a demanda seja recusada. Em ambos os casos, a capacidade militar conta apenas na medida em que o ator visado acredita que a ameaça poderia ser executada.
Uma invasão é o caso mais claro de hard power militar, porque o Estado atacante impõe custos diretamente ao Estado invadido. Antes que uma guerra chegue a esse ponto, deslocamentos militares visíveis podem avisar um adversário de que o uso da força poderá vir em seguida ou assegurar a um aliado que existe proteção disponível. Esses sinais são politicamente importantes porque mudam as expectativas de adversários e parceiros acerca da possibilidade de uso ou não da força militar.
Por sua vez, alianças mudam a barganha de outra maneira. Quando um ataque contra um Estado pode arrastar um aliado mais poderoso para o conflito, o possível confronto se torna maior e mais custoso para o atacante. Pela mesma razão, a assistência de segurança pode elevar o custo da agressão quando o apoio externo torna um governo aliado mais difícil de derrotar.
Ao mesmo tempo, um Estado protegido pode ficar dependente da proteção de segurança que recebe. É verdade que um governo que depende de apoio militar estrangeiro pode ganhar capacidades militares. No entanto, também fica exposto às escolhas futuras do Estado que o apoia, no que tange à continuidade do suporte. Assim, o apoio militar pode influenciar tanto o adversário que se busca dissuadir quanto o parceiro cuja segurança depende desse apoio.
Hard power econômico
O hard power econômico é aquele que usa a dependência material como fonte de poder de barganha. Em vez de ameaçar o uso da força armada, um ator pressiona o outro ao controlar o acesso a sistemas econômicos de que ele precisa.
A mesma lógica aparece no campo dos mercados e das finanças. O hard power econômico transforma dependência em poder de barganha. Por exemplo, um Estado que controla um mercado crucial pode condicionar o acesso a esse mercado. De modo semelhante, um Estado que domina uma rede financeira pode dificultar transações para o ator que deseja influenciar. Em ambos os casos, a força coercitiva vem do custo da exclusão.
A pressão econômica pode operar retirando acesso a um mercado ou canal financeiro necessário. Ela também pode funcionar ao condicionar o apoio estatal ou a cooperação econômica a uma concessão política. Embora um instrumento remova um benefício existente e o outro ofereça um benefício futuro, a lógica da barganha é semelhante: o ator visado precisa pesar um custo ou ganho material contra o comportamento exigido pelo Estado que aplica a pressão.
A pressão energética segue o mesmo padrão quando um país importador tem poucos substitutos para o combustível ou a infraestrutura de um fornecedor. Se o fornecedor retém entregas, o governo importador pode enfrentar pressão doméstica decorrente de preços mais altos ou de interrupções no abastecimento. Por outro lado, o restabelecimento do acesso ao fornecimento de energia pode se tornar um incentivo se o fornecedor o oferecer em termos políticos. Desse modo, a dependência de um recurso se torna um canal por meio do qual um ator pode influenciar as decisões de outro ator.
Por que sanções são hard power
Uma sanção pertence ao hard power quando ela visa à aquiescência por meio de restrições materiais. Embora o instrumento seja econômico, o mecanismo é coercitivo: a autoridade sancionadora limita o acesso do ator visado a recursos ou transações. Como resultado, o ator visado fica com menos opções concretas de ação, porque o acesso externo foi limitado.
Por esse motivo, o mecanismo da sanção é mais importante do que o rótulo de política atribuído a ela. A classificação depende de como se espera que a sanção influencie o comportamento. Se uma sanção muda incentivos por meio de perda ou restrição, ela pertence à família do hard power. Portanto, a pressão financeira pode ser tão coercitiva quanto uma ameaça militar quando muda o que outro ator pode fazer.
As sanções do Conselho de Segurança das Nações Unidas mostram esse mecanismo no plano institucional. Um regime de sanções pode dificultar a continuidade de uma atividade proibida ao cortar os recursos externos necessários para mantê-la. Programas nacionais de sanções podem operar em paralelo quando o direito interno proíbe atores privados de transacionar com alvos designados. Em cada contexto, a sanção funciona pela redução do acesso, em vez de pela persuasão do alvo por meio de atração ou argumento.
Além disso, as sanções podem fracassar sem que sua lógica básica mude. Isso ocorre, por exemplo, quando um governo visado contorna a restrição ou transfere o ônus econômico para pessoas que não controlam a política contestada. Ainda assim, as sanções continuam sendo um instrumento de hard power, porque tentam influenciar comportamentos por meio de restrições materiais impostas.
Hard power, soft power e smart power
Nas palavras de Joseph Nye, o hard power difere do soft power pelo mecanismo. O hard power funciona por meio de coerção ou pagamento, enquanto o soft power funciona por meio de atração e persuasão. Smart power se refere a uma estratégia que combina os dois quando um objetivo de política externa exige tanto pressão quanto consentimento.
Essa distinção também evita classificar os recursos dos Estados de modo mecânico. A categoria depende mais do mecanismo de influência do que do tipo de recurso. A título de exemplo, recursos militares podem construir boa vontade quando oferecem ajuda médica, mas se tornam hard power quando ameaçam um adversário com força. Recursos econômicos seguem a mesma lógica: uma bolsa de estudos atrai por meio de uma oportunidade, ao passo que a ajuda condicionada compra a aceitação de uma demanda ao vincular o dinheiro a uma escolha política exigida. Com isso, o mesmo tipo de recurso pode operar por meio de diferentes formas de poder.
O smart power é útil porque a coerção raramente resolve sozinha um problema político. Depois que a pressão coercitiva muda o cálculo imediato do ator visado, o Estado que aplica a pressão ainda pode precisar de legitimidade e apoio diplomático para chegar a um acordo viável com o outro Estado. Caso contrário, a aceitação do alvo pode durar apenas enquanto a pressão permanecer em vigor.
Capacidades, credibilidade e contexto
O hard power é frequentemente medido pelas capacidades materiais visíveis dos Estados. Força militar e tamanho econômico são os pontos de partida usuais, porém outros recursos também devem ser levados em conta, na medida em que podem tornar-se poder de barganha em uma disputa específica.
Por isso, as capacidades materiais precisam estar ligadas a uma relação específica: elas só se tornam hard power quando podem ser convertidas em resultados. Isso fica claro ao observar que um grande exército pode dissuadir um adversário temeroso de ser derrotado, porém pode ser ineficaz contra um oponente capaz de absorver perdas militares ou de evitar o confronto direto. A pressão econômica segue a mesma lógica: sanções perdem força quando o ator visado consegue substituir o canal econômico restringido.
A credibilidade de um ator faz parte dessa conversão de capacidades em recursos de hard power. Quando um ator visado acredita que uma punição contra ele não será executada, potenciais ameaças que ele receber têm valor limitado. Similarmente, também têm valor limitado as recompensas prometidas a esse ator, caso ele duvide que o benefício chegará depois que aceitar a demanda. Desse modo, a reputação e a capacidade implementadora dos Estados influenciam na definição da eficácia do hard power.
Por fim, vale ressaltar que o mesmo recurso pode produzir resultados diferentes em situações diferentes. Um deslocamento naval pode tranquilizar um aliado em uma crise e provocar a escalada de um adversário em outra. Um controle de exportação pode desacelerar o programa tecnológico de um rival ao restringir o acesso a insumos especializados, mas também pode incentivar o rival a desenvolver fornecedores substitutos. Na prática, os recursos materiais são menos decisivos do que a relação política que lhes confere força — seja ela baseada na coerção, seja ela baseada em incentivos.
Complicações contemporâneas
Os conflitos contemporâneos muitas vezes borram as distinções, mais comuns antigamente, entre ferramentas militares e ferramentas econômicas. Por exemplo, uma campanha estatal pode combinar, contra um mesmo adversário, tanto pressões armadas visíveis quanto restrições financeiras. Uma campanha também pode usar perturbação digital para elevar o custo da resistência do alvo, ou enfraquecer a capacidade de resposta dele. Nesses casos, o mecanismo de influência é mais importante do que o rótulo atribuído ao instrumento.
A mesma ambiguidade transparece em instrumentos mais recentes de condução de política externa, como as operações cibernéticas. Se elas são utilizadas para ameaçar a infraestrutura de um Estado, ou para tornar a resistência dele mais custosa, elas pertencem ao campo do hard power. Contudo, se o ambiente digital é usado para atrair públicos estrangeiros, trata-se de um instrumento de soft power. Por sua vez, caso um Estado atue digitalmente para manipular informações ou censurar opositores, moldando o que o público externo pode ver, tal país faz uso do sharp power.
Outros exemplos também deixam isso claro. Um Estado pode empregar a Internet para construir um clima de boa vontade com os seus pares, mas também pode empregá-la para distorcer o debate público ou para vazar dados de um oponente. Nesses últimos casos, a atuação estatal aproxima-se do conceito de hard power, uma vez que é o dano esperado, e não a atração ou o engano, que explica a influência de um Estado sobre o outro.
Em cenários de guerra híbrida, que são cada vez mais frequentes, o problema é agravado, pois a coerção pode se distribuir por vários canais. Não é raro que um Estado pressione um adversário por meio de grupos armados aliados, ao mesmo tempo em que exerce pressão digital ou econômica — mesmo que abaixo do limiar de uma guerra aberta. Isso significa, portanto, que ações combinadas podem coagir um alvo mesmo sem que seja perceptível um momento claro de escalada de tensões.
Limites do hard power
O hard power continua importante porque Estados e outros atores ainda enfrentam ameaças de segurança e vulnerabilidade econômica. Ferramentas coercitivas podem mudar as decisões de um alvo quando alteram o custo esperado de resistir a uma demanda.
Ao mesmo tempo, o hard power tem limites claros. Ele pode compelir um alvo a aceitar uma demanda sem tornar essa demanda legítima aos olhos desse alvo. Também pode causar danos em pessoas que não controlam a política contestada. Além disso, mesmo quando a coerção dissuade uma ação específica, ela pode deixar a disputa subjacente sem solução.
Esses limites se tornam mais sérios quando o ator visado ou públicos externos veem a pressão como desproporcional ou ilegal. Nesses casos, a coerção pode fortalecer a resistência política em vez de enfraquecê-la. Como resultado, uma ameaça ou sanção pode forçar aceitação no curto prazo e, ainda assim, deixar de produzir um acordo estável no longo prazo.
Portanto, o hard power é mais bem compreendido como um mecanismo de influência, e não como uma estratégia completa de política externa. Ele pode proteger os interesses de um Estado e forçar outro ator a escolher sob pressão. Por si só, não basta para criar consentimento, confiança ou um acordo político duradouro entre as nações.