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COPs do clima: como funcionam as conferências da ONU

Vista ampla de delegados sentados no plenário da COP21 em Le Bourget, perto de Paris, sob um teto arqueado iluminado em vermelho, com fileiras de mesas de conferência, microfones, grandes telas pretas, estruturas de iluminação, câmeras, crachás e fones de tradução visíveis antes dos discursos oficiais.

Delegados reunidos no plenário da COP21, em Le Bourget, perto de Paris, antes de discursos de líderes e autoridades da conferência climática. Imagem em domínio público.

As COPs do clima são as conferências anuais em que os países da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) negociam a direção política do regime climático. A agenda começa por mitigação e adaptação. Em seguida, chega ao financiamento, às regras de transparência, às perdas e danos e à implementação do Acordo de Paris. A sigla vem de Conference of the Parties, em português Conferência das Partes. Ela aparece em outros tratados, inclusive em biodiversidade e desertificação. Na prática internacional, “a COP” sem complemento normalmente designa a reunião climática da UNFCCC.

A Conferência das Partes é o órgão político máximo da UNFCCC. Ela reúne quase todos os Estados do mundo em torno de decisões que depois precisam virar leis, planos e orçamentos. A força das COPs está menos em mandar diretamente nos governos e mais em criar linguagem comum e pressão pública. Expectativas procedimentais pesam nessa engrenagem: governos passam a justificar suas metas diante de outros governos e de públicos domésticos.

O que é uma COP da UNFCCC?

A UNFCCC foi aberta para assinatura na Rio-92 e entrou em vigor em 1994. Seu objetivo é estabilizar as concentrações de gases de efeito estufa em nível que evite interferência humana perigosa no sistema climático. Como convenção-quadro, ela estabeleceu princípios e instituições gerais, mas deixou grande parte da implementação para decisões posteriores. A COP transforma a Convenção em trabalho político continuado, ano após ano. Ela revisa a aplicação da Convenção, acompanha compromissos, adota decisões, cria órgãos subsidiários e orienta novas rodadas de negociação.

Desde a COP1, em Berlim, em 1995, a reunião anual se tornou o centro visível do regime climático internacional. O regime é maior que a COP. Ele inclui o Protocolo de Kyoto e o Acordo de Paris. Depende ainda de fundos climáticos, inventários nacionais, relatórios técnicos e mecanismos de mercado. Redes de adaptação, processos de revisão e trabalho científico do IPCC completam a arquitetura. A COP é a arena em que muitas dessas peças se encontram politicamente.

Essa estrutura cria uma expectativa mais realista. A COP organiza ciclos de negociação em vez de “resolver o clima” em duas semanas. Ela valida compromissos que dependem de energia, agricultura, transporte e indústria. Florestas e finanças públicas entram nessa cadeia, que alcança bancos de desenvolvimento, empresas e governos locais. Uma COP pode ser diplomaticamente importante mesmo quando seu resultado parece frustrante. A utilidade da conferência aparece justamente nessa continuidade: cada encontro herda pendências anteriores e cria obrigações de explicação para o encontro seguinte. Às vezes, ela fecha uma regra técnica necessária ao acordo maior. Em outros casos, expõe a distância entre promessa e entrega.

Quem participa?

O núcleo formal é composto pelas partes da UNFCCC: Estados e a União Europeia. Cada delegação negocia em nome de seu governo, mas quase sempre atua em grupos. G77 e China, União Europeia e Umbrella Group são exemplos recorrentes. Pequenos Estados insulares, países menos desenvolvidos, BASIC e outros arranjos completam a geometria política da sala. A maior parte da negociação acontece por coalizões, mais do que por centenas de delegações falando isoladamente. Esses grupos reduzem o número de vozes na sala e permitem que países com interesses próximos negociem em bloco.

A presidência da COP costuma ser exercida pelo país anfitrião. Ela conduz consultas, propõe textos de compromisso e tenta transformar divergências em decisão aceitável. A secretaria da UNFCCC presta apoio técnico e administrativo. Órgãos subsidiários, como o SBI e o SBSTA, preparam partes do trabalho antes e durante a conferência. Ministros entram na fase final, quando temas técnicos viram escolhas políticas sobre financiamento e prazos. Nesse momento, responsabilidade histórica e ambição deixam de ser abstrações e entram no texto.

Há ainda observadores. O grupo inclui organizações internacionais, cientistas e povos indígenas. Governos subnacionais e sociedade civil organizada ocupam esse espaço. Empresas e sindicatos formam outro círculo de pressão, junto com imprensa e movimentos sociais. Esses atores possuem menos poder decisório que as partes. Na prática, influenciam a agenda, fiscalizam compromissos e produzem dados. A COP combina uma negociação diplomática formal com um espaço público mais amplo. O entorno público exerce influência indireta sobre o texto final e muda o custo político de aceitar uma decisão fraca.

Como as decisões são tomadas?

As decisões climáticas costumam buscar consenso. A ausência de bloqueio não equivale a entusiasmo unânime. Significa que nenhum ator com força suficiente barrou o texto final. O consenso climático funciona como técnica de sobrevivência institucional: evita uma votação divisiva e torna cada avanço dependente de redação aceitável para rivais. Na prática, o processo é lento, pois cada palavra pode alterar obrigações e financiamento. Essa escolha de palavras mexe com mercados, reputação e margem de manobra doméstica. Verbos como “decidir” e “solicitar” têm peso distinto de “encorajar”, “reconhecer” ou “instar”.

A negociação começa muito antes da foto final. Projetos de decisão circulam em órgãos técnicos, consultas informais, reuniões ministeriais e grupos de contato. O país que preside a COP tenta fechar um pacote que nenhuma coalizão central considere inaceitável. Em caso de impasse, o texto pode ser rebaixado, adiado ou transferido para uma decisão futura. O resultado de uma COP exige leitura cuidadosa. Uma decisão formal da UNFCCC tem peso distinto de uma declaração voluntária, um anúncio financeiro ou uma iniciativa empresarial feita à margem.

A própria UNFCCC explica, em seu material sobre como as COPs são organizadas, que o anfitrião assume responsabilidades logísticas e políticas. A presidência precisa ser agenda-setter e mediadora ao mesmo tempo. A função é delicada: uma condução excessivamente nacional perde confiança, enquanto passividade deixa o processo se fragmentar.

Como ler um resultado de COP?

O primeiro cuidado é separar o que foi aprovado dentro da UNFCCC do que foi anunciado ao redor da conferência. Uma decisão da COP, da CMP ou da CMA tem peso institucional no regime climático. Uma declaração de líderes pode ter relevância política, com acompanhamento distinto. Promessas financeiras exigem leitura ainda mais cuidadosa. Elas podem ser dinheiro novo ou apenas reclassificação de compromissos anteriores. Podem vir como doação, empréstimo, garantia ou investimento privado. Em clima, a palavra “bilhões” diz pouco sem saber quem paga, em que prazo e por qual instrumento. O acesso dos países vulneráveis ao recurso é parte do mesmo cálculo.

O segundo cuidado é olhar para verbos, prazos e mecanismos de prestação de contas. Um texto que “reconhece” uma lacuna científica é diferente de um texto que “solicita” novas NDCs ou “decide” criar um programa de trabalho. A força de uma decisão depende tanto do verbo quanto do mecanismo que acompanha o verbo. Um parágrafo sobre adaptação pode ser politicamente forte e operacionalmente fraco se faltar indicador, financiamento ou canal institucional. Da mesma forma, uma referência a combustíveis fósseis pode ter grande valor diplomático e deixar aberta a maior parte da política energética doméstica.

O terceiro cuidado é comparar a decisão com o ciclo anterior. Uma COP raramente nasce do zero. Ela responde a mandatos pendentes, relatórios técnicos, NDCs recém-entregues e balanços globais. Crises econômicas, desastres climáticos e disputas de confiança mudam o tom da negociação. Um tema que “fracassa” costuma voltar no ano seguinte com outra redação. Um tema que “avança” enfrenta o teste real da implementação. A régua correta vai além de perguntar se a conferência salvou o planeta. Ela pergunta se ficou mais difícil adiar a próxima decisão necessária.

COP, CMP e CMA

As grandes conferências climáticas atuais reúnem mais que a COP da Convenção. Elas abrigam, em paralelo, três instâncias principais. A COP trata da UNFCCC. A CMP reúne as partes do Protocolo de Kyoto. A CMA reúne as partes do Acordo de Paris. A mesma semana negocia tratados sobrepostos, e essa sobreposição explica por que decisões técnicas e políticas saem em trilhas diferentes. Da sobreposição vêm nomes longos, como COP30/CMP20/CMA7, e textos distintos no mesmo encontro.

O Protocolo de Kyoto, adotado em 1997, criou metas quantitativas para países desenvolvidos listados em seus anexos. O tratado previu ainda mecanismos de flexibilidade, como o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo. Já o Acordo de Paris, adotado na COP21 em 2015, mudou a lógica central. Em vez de fixar metas de redução apenas para um grupo de países desenvolvidos, ele exige que todas as partes apresentem contribuições nacionalmente determinadas. Essas NDCs devem progredir ao longo do tempo.

Essa diferença mudou o papel das COPs. Antes de Paris, grande parte da disputa girava em torno de quem teria metas obrigatórias. Depois de Paris, o centro passou a ser a implementação. A qualidade das NDCs e o financiamento para países em desenvolvimento ganharam peso. Transparência, adaptação e perdas e danos passaram a disputar espaço no mesmo ciclo. Mercados de carbono do Artigo 6, transição energética e balanço global completam essa agenda. A pergunta deixou de ser apenas “há acordo?” e passou a ser “o acordo está sendo cumprido em escala compatível com a ciência?”.

O que Paris mudou

O Acordo de Paris transformou a COP em uma engrenagem de ciclos. Com Paris, a conferência passou a revisar promessas nacionais recorrentes, mais do que negociar novos textos internacionais. As partes devem apresentar e atualizar NDCs, informar emissões e políticas, participar de processos de transparência e responder ao balanço global. Esse balanço avalia o progresso coletivo. O primeiro, concluído em Dubai na COP28, mostrou que a resposta internacional ainda estava aquém do necessário. A decisão reforçou a centralidade da transição para longe dos combustíveis fósseis, da adaptação e do financiamento.

No ciclo pós-Paris, cada COP passou a carregar uma agenda dupla. Uma parte é técnica e trata de relatórios, metodologias e revisão. Os mercados de carbono entram nesse lado do trabalho. Outra parte é distributiva. Ela define quem paga, quem reduz primeiro e quem recebe apoio. Nessa parte se decide como perdas irreversíveis serão tratadas. A pergunta sobre crescimento em países em desenvolvimento sem repetição de trajetórias intensivas em carbono entra no mesmo pacote. A política das COPs é a política de transformar um objetivo planetário em responsabilidades nacionais desiguais.

Esse arranjo torna o financiamento climático presença quase permanente nas conferências. Financiamento é o ponto em que ambição climática encontra capacidade fiscal, confiança política e desigualdade histórica. Países em desenvolvimento argumentam que mitigação e adaptação exigem recursos, tecnologia e capacidade institucional. Países desenvolvidos tentam ampliar a base de contribuidores. Buscam ainda diferenciar instrumentos financeiros e exigir prestação de contas. O resultado é uma disputa constante sobre números e qualidade do financiamento. Pesa ainda a diferença entre acesso real a fundos e anúncios que dependem de empréstimos, garantias ou investimento privado.

De Marrakech a Belém

A sequência pós-Paris ilustra como as COPs funcionam por acumulação. A história recente das COPs é menos uma sucessão de eventos isolados que uma fila de pendências que muda de nome e de urgência. Marrakech iniciou a adaptação institucional ao novo acordo em 2016. Bonn avançou em diálogo facilitador em 2017 e ampliou a presença de gênero, comunidades locais e povos indígenas. Katowice aprovou grande parte do “livro de regras” de Paris em 2018. Madrid mostrou em 2019 os custos do impasse em mercados de carbono.

Com a retomada pós-pandemia, Glasgow fechou partes importantes do Artigo 6 em 2021. A reunião reforçou a linguagem sobre carvão, metano, florestas e transparência. Sharm el-Sheikh tornou perdas e danos o principal resultado político em 2022. Dubai operacionalizou o fundo de perdas e danos em 2023 e concluiu o primeiro balanço global. Baku concentrou-se em 2024 no novo objetivo coletivo quantificado de financiamento climático. A reunião preparou o caminho financeiro até Belém. O processo saiu da arquitetura do acordo e entrou na disputa sobre entrega, dinheiro e transformação econômica. Essa mudança explica por que as COPs recentes parecem menos fundacionais e mais cobradoras.

Belém deu à COP30 valor simbólico e político particular em 2025. A conferência ocorreu dez anos depois do Acordo de Paris, no Brasil amazônico. As expectativas se concentraram em implementação e florestas, além de adaptação e justiça climática. A UNFCCC publicou o Belém Political Package, que reuniu decisões e iniciativas em várias frentes. Um eixo tratou de mitigação, financiamento e tecnologia. Outro tratou de transição justa, perdas e danos e participação social. Belém tornou visível que implementação envolve disputa sobre custo, velocidade e responsabilidade na transição.

Em 28 de junho de 2026, a próxima conferência listada pela UNFCCC é a COP31 em Antalya, Türkiye, marcada para 9 a 20 de novembro de 2026. A organização apresenta o processo como “Road to Antalya”, em parceria entre Türkiye e Austrália. A escolha mostra outro traço das COPs: a agenda climática é global, mas cada presidência tenta imprimir prioridades regionais e econômicas ao mesmo processo multilateral.

Por que as COPs importam?

As COPs importam ao concentrar atenção, decisões e pressão. A conferência muda o ambiente político em que governos, empresas e sociedade civil calculam o custo de agir tarde. Nenhum governo precisa esperar uma COP para reduzir emissões ou criar política industrial verde. Tampouco precisa esperar para proteger florestas ou adaptar cidades. Ainda assim, a conferência cria prazos e aumenta custo reputacional. Organiza financiamento, permite comparação entre países e dá visibilidade a grupos que sofreriam isolamento se negociassem apenas em arenas nacionais.

Há limites claros. Uma decisão da COP não substitui legislação doméstica nem orçamento público. Tampouco resolve sozinha capacidade administrativa, planejamento energético ou regulação financeira. A distância entre texto e implementação é uma crítica recorrente e, em muitos casos, justa. O processo ainda depende de consenso entre países com responsabilidades históricas, capacidades econômicas e interesses energéticos muito diferentes. Isso torna as decisões lentas e frequentemente menos ambiciosas do que a ciência climática recomenda.

A utilidade das COPs está em outra escala. Elas funcionam menos como governo mundial do clima e mais como coordenação política dentro de um sistema internacional descentralizado. Em seus melhores momentos, reduzem a desordem: tornam compromissos comparáveis, criam regras mínimas e dão nome às lacunas. A conferência ainda impede que governos tratem a crise climática como assunto puramente doméstico. Quando funcionam mal, revelam onde está o bloqueio. O problema pode estar no financiamento, na linguagem fraca ou na promessa sem plano. Pode surgir na disputa sobre carbono, na resistência fóssil ou na falta de confiança entre Norte e Sul.

Ler uma COP exige separar o espetáculo da engrenagem. O exame vai além do discurso no plenário. O texto final e os anexos importam. Os mecanismos de acompanhamento e a qualidade do dinheiro prometido contam na mesma leitura. O valor do processo está em obrigar soberanias a prestar contas umas às outras diante de uma crise comum. A reação dos países vulneráveis, a coerência com as NDCs e a capacidade de manter pressão até a conferência seguinte completam o quadro. As COPs são imperfeitas: refletem a política mundial real. Ainda assim, continuam sendo o principal fórum em que essa política precisa se explicar diante de um problema que nenhum Estado consegue resolver sozinho.

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