
Vista aérea da Praça de São Pedro, no Vaticano. Imagem de Staselnik, licenciada sob CC BY-SA 3.0.
A Santa Sé ocupa uma posição única no direito internacional e nos assuntos globais. Ela é ao mesmo tempo o órgão central de governo da Igreja Católica e uma entidade soberana com ampla influência diplomática. Mantém personalidade jurídica internacional e atua na diplomacia global há séculos, mesmo quando ficou privada de soberania territorial. Sob o papa Leão XIV, eleito em maio de 2025, suas relações diplomáticas formais alcançam quase todos os países do mundo. Também participa de organizações internacionais e firma acordos vinculativos, como concordatas. Seu soft power opera por mediação, diálogo inter-religioso, ajuda humanitária e defesa de direitos. Essas iniciativas mostram como a Santa Sé usa autoridade espiritual para promover cooperação na política global.
Resumo
- A Santa Sé governa a Igreja Católica e atua como uma entidade soberana nos assuntos globais.
- Ela possui um status internacional jurídico sui generis único, distinto do Estado da Cidade do Vaticano.
- Sua soberania é historicamente reconhecida e não depende de território.
- Atualmente, mantém relações diplomáticas formais com 184 Estados, além da União Europeia e da Ordem Soberana e Militar de Malta.
- Assina acordos internacionais vinculativos, incluindo tratados específicos chamados concordatas.
- Participa ativamente da diplomacia multilateral, notadamente como Estado Observador Permanente na ONU.
- É signatária de importantes convenções internacionais sobre direitos humanos e direito humanitário.
- Exerce influência global por meio da mediação de paz, diálogo inter-religioso e esforços de auxílio humanitário.
- Sua atuação se concentra fortemente na defesa dos direitos humanos, incluindo migrantes e refugiados, e da proteção ambiental, como exemplificado na encíclica Laudato si’.
- Entre seus dossiês diplomáticos recentes estão o pontificado de Leão XIV, a prorrogação por quatro anos do acordo sobre bispos na China em 2024 e as relações com Omã desde 2023.
O status da Santa Sé no direito internacional
A Santa Sé representa o órgão central de governo da Igreja Católica, liderado pelo Papa como Bispo de Roma. Ela é distinta do Estado da Cidade do Vaticano no direito internacional. Historicamente, o Papa governava territórios significativos conhecidos como Estados Pontifícios. Contudo, após a unificação da Itália, esses territórios foram perdidos em 1870. A Santa Sé ficou sem território por quase sessenta anos, mas continuou exercendo personalidade jurídica internacional. Manteve relações diplomáticas e atuou no cenário mundial. Esse período demonstrou que a soberania da Santa Sé não estava intrinsecamente atrelada ao território.
A situação foi formalmente resolvida em 1929 com o Tratado de Latrão entre a Santa Sé e a Itália. O tratado reconheceu a soberania da Santa Sé na esfera internacional e criou o Estado da Cidade do Vaticano.
O Estado da Cidade do Vaticano fornece uma base física, enquanto a Santa Sé continua sendo o órgão de governo da Igreja mundial. A cidade-Estado existe para garantir a liberdade e a autonomia da Santa Sé em sua missão global.
O direito internacional reconhece amplamente a Santa Sé como entidade soberana com personalidade jurídica internacional. A Santa Sé possui direitos e deveres comparáveis aos dos Estados. Seu status é frequentemente denominado sui generis — único ou “de sua própria natureza”. A Santa Sé não atende aos critérios tradicionais de estatalidade baseados sobretudo em território e população, mas desfruta de reconhecimento soberano. Sua personalidade jurídica se apoia na continuidade histórica e na autoridade espiritual global, não em uma estatalidade territorial comum.

A Guarda Suíça, que protege o Papa e seu palácio. Imagem de Etxaburu, licenciada sob CC BY-SA 4.0.
A rede diplomática da Santa Sé
O status reconhecido da Santa Sé como entidade soberana no direito internacional lhe confere capacidade para estabelecer relações diplomáticas com Estados e outros atores internacionais. Também lhe dá autoridade para firmar acordos internacionais vinculativos. Uma categoria distinta de tratado bilateral celebrado pela Santa Sé é o concordato. Concordatas definem o status jurídico e os direitos da Igreja Católica dentro do território de um Estado. Podem tratar de liberdade religiosa, nomeação de bispos e propriedade da Igreja. Também podem regular educação ou reconhecimento do matrimônio. Concordatas moldam relações Igreja-Estado e podem influenciar o direito interno conforme o ordenamento constitucional de cada país. Para além delas, a Santa Sé firma acordos sobre interesses mútuos e questões globais.
O centro operacional da política externa e das atividades diplomáticas da Santa Sé é a Secretaria de Estado, especialmente a Seção para Relações com Estados e Organizações Internacionais. Ela funciona de maneira semelhante a um ministério das Relações Exteriores.
Por meio desse aparato, a Santa Sé mantém uma extensa rede diplomática global. Segundo a nota diplomática da Sala de Imprensa da Santa Sé de janeiro de 2026, a Santa Sé mantém atualmente relações diplomáticas plenas com 184 Estados, além da União Europeia e da Ordem Soberana e Militar de Malta.
A mesma nota contabilizava 93 chancelarias de embaixadas acreditadas junto à Santa Sé com sede em Roma. Essas relações abrangem praticamente todo o planeta e incluem países com sistemas políticos e contextos religiosos muito diferentes. Representantes diplomáticos papais junto a governos estrangeiros e organizações internacionais são conhecidos como núncios apostólicos. Eles atuam como embaixadores da Santa Sé no país anfitrião. Também representam o Papa perante a hierarquia e a comunidade católica em cada país.
Além dos compromissos bilaterais, a Santa Sé é participante ativa da diplomacia multilateral. O status de Estado Observador Permanente na Organização das Nações Unidas lhe dá ampla participação sem torná-la Estado membro da ONU. Seus delegados podem comparecer e discursar em reuniões da Assembleia Geral. Também podem participar, quando pertinente, do Conselho de Segurança e do Conselho Econômico e Social. Sob os auspícios da ONU, participam da redação e negociação de tratados internacionais em igualdade de condições com os Estados membros. Missões permanentes em Nova York e Genebra acompanham o trabalho dos órgãos da ONU. A Santa Sé usa o status de observador para preservar neutralidade política enquanto atua em questões humanitárias e morais. Além disso, sua atuação se estende a inúmeros outros organismos internacionais. É membro pleno da OSCE, da Agência Internacional de Energia Atômica e da Organização Mundial da Propriedade Intelectual. Também pertence à União Internacional de Telecomunicações. A Santa Sé detém status de observador em órgãos como OMC, OMS e UNESCO.
O compromisso da Santa Sé com a ordem jurídica internacional é evidenciado ainda por sua adesão a tratados multilaterais. Ela é parte de acordos centrais de direito humanitário, como as Convenções de Genebra. Também participa de regimes de controle de armas, incluindo a não proliferação nuclear, e de tratados sobre patrimônio cultural, propriedade intelectual e comunicações. Em direitos humanos, a Santa Sé ratificou tratados centrais da ONU. Entre eles estão a Convenção Contra a Tortura, a Convenção sobre os Direitos da Criança e a Convenção sobre a Eliminação da Discriminação Racial. Ao tornar-se parte desses instrumentos, a Santa Sé aceita a obrigação de cumprir seus padrões e submete suas práticas relevantes à revisão periódica.
A influência global da Santa Sé
A Santa Sé utiliza sua posição singular e autoridade moral para exercer influência nos assuntos internacionais. Frequentemente atua como facilitadora da paz e defensora da dignidade humana.
Sua mediação funciona melhor quando as partes buscam um canal discreto com autoridade moral, mas sem o poder material típico das grandes potências. A intervenção solicitada por Argentina e Chile no final dos anos 1970 ajudou a evitar uma possível guerra pelo Canal de Beagle. Após anos de mediação conduzida pelo cardeal Antonio Samorè sob mandato do Papa João Paulo II, as partes chegaram ao Tratado de Paz e Amizade de 1984. Sob o Papa Francisco, a Santa Sé também ajudou a favorecer a comunicação entre Estados Unidos e Cuba. Usou seus canais diplomáticos e “bons ofícios” para sediar reuniões em 2014 que contribuíram para a normalização das relações. Mediações diretas dependem da disposição das partes conflitantes, enquanto a diplomacia pontifícia mais ampla defende de modo consistente o diálogo e a negociação pacífica. Essa atuação é frequentemente chamada de “diplomacia da esperança”.

Papa Francisco em encontro com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky no contexto da Guerra Russo-Ucraniana. Imagem do site da Presidência da Ucrânia, licenciada sob CC BY 4.0.
Vinculada de perto aos esforços de construção da paz está a atuação dedicada da Santa Sé na promoção do diálogo inter-religioso. Papas e dicastérios vaticanos vêm priorizando pontes com líderes e comunidades de outras religiões. Esse trabalho inclui conferências conjuntas e declarações comuns contra a violência. Também envolve debates teológicos e projetos cooperativos sobre paz, justiça e cuidado ambiental. O diálogo inter-religioso busca reduzir conflitos motivados por religião e apoiar cooperação pelo bem comum.
A defesa de questões globais urgentes constitui outro pilar da atuação internacional da Santa Sé, frequentemente centrada na dignidade humana.
A Santa Sé pede reconhecimento e proteção universais dos direitos fundamentais, com ênfase especial na liberdade religiosa. Sob o Papa Francisco, migrantes, refugiados e vítimas de tráfico humano receberam atenção permanente. Francisco pediu políticas mais acolhedoras e voltadas para a integração, e condenou a xenofobia contra pessoas que fogem de guerra, pobreza ou perseguição. Sob Leão XIV, essa agenda diplomática continua dentro de uma ênfase mais ampla da Santa Sé em paz, dignidade humana e proteção humanitária. A Santa Sé apoiou os Pactos Globais da ONU para Migração e Refugiados para inserir dignidade humana e responsabilidade compartilhada nos marcos internacionais de mobilidade.
A atuação da Santa Sé se estende às questões ambientais, articuladas na carta encíclica de 2015 do Papa Francisco, Laudato si’, Sobre o Cuidado da Casa Comum. A encíclica apresentou um arcabouço moral e espiritual para compreender desafios ambientais. Defendeu uma “ecologia integral” que conecta o bem-estar do planeta à justiça social e à promoção humana. Criticou o consumismo e o desenvolvimento irresponsável. Também pediu ação urgente diante das mudanças climáticas, da perda de biodiversidade e de estilos de vida insustentáveis. Laudato si’ elevou o perfil das questões ambientais na Igreja Católica e ofereceu uma voz ética às negociações internacionais sobre clima.
Para além dos pronunciamentos diplomáticos, a Santa Sé inspira e apoia ações humanitárias realizadas por organizações católicas ao redor do mundo. A Santa Sé pode prestar ajuda emergencial direta por obras de caridade papais, mas seu impacto mais amplo está no apoio a entidades como a Caritas Internationalis. A Caritas é uma confederação de organizações católicas de assistência, desenvolvimento e serviço social presente em mais de 200 países e territórios. A Santa Sé também supervisiona ordens religiosas dedicadas à saúde, educação e assistência social. Redes humanitárias católicas atendem populações vulneráveis afetadas por conflitos e desastres naturais. Também respondem à pobreza e a doenças como expressões práticas da preocupação da Santa Sé com o bem-estar humano.
Além disso, a Santa Sé pratica diplomacia cultural por meio de suas instituições. A Biblioteca Apostólica Vaticana e o Arquivo Secreto Vaticano abrigam coleções que documentam séculos de história, arte e cultura humanas. Também funcionam como centros de pesquisa acadêmica internacional. Os Museus Vaticanos recebem milhões de visitantes e exibem um grande patrimônio artístico. Academias Pontifícias reúnem especialistas internacionais para debater ciência, sociedade e questões éticas contemporâneas. Essas instituições sustentam intercâmbio cultural e engajamento intelectual.
Entre engajamentos diplomáticos recentes, a relação com a República Popular da China permanece um foco fundamental. O Acordo Provisório de 2018 sobre a nomeação de bispos continua orientando os esforços para normalizar a vida da Igreja Católica na China. Foi prorrogado diversas vezes, mais recentemente em outubro de 2024 por quatro anos. O dossiê chinês mostra como a Santa Sé separa acesso pastoral de reconhecimento diplomático pleno. O processo ainda é delicado, e laços diplomáticos formais não foram estabelecidos. A Santa Sé ainda mantém relações diplomáticas formais com a República da China (Taiwan), o que cria uma situação geopolítica complexa. Em fevereiro de 2023, a Santa Sé estabeleceu relações diplomáticas plenas com o Sultanato de Omã. O gesto refletiu esforço contínuo de construção de pontes, especialmente no mundo islâmico.
Conclusão
O status jurídico e as atividades diplomáticas da Santa Sé a destacam como entidade singular no direito internacional. Sua soberania permite manter uma vasta rede diplomática, influenciar acordos internacionais e contribuir para organizações multilaterais. A Santa Sé influencia assuntos mundiais por mediação, defesa dos vulneráveis, diálogo inter-religioso e ação humanitária. Instituições culturais acrescentam outro canal de presença global. Ao navegar por cenários geopolíticos complexos, sua diplomacia continua enfatizando diálogo, paz e bem comum.